Coreografia de John Lennon da Silva para clássico do balé é sucesso na internet

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O solo A morte do cisne criado em 1905 pelo russo Mikhail Fokine e a música de Camille Saint-Saens retratam o último voo de um cisne, antes de ele morrer. Na versão original, a bailarina, com figurino impecavelmente branco e na ponta dos pés, interpreta toda a agonia da ave se debatendo até desfalecer. No fim do ano passado, um rapaz de 20 anos, morador do bairro de São Mateus, na Zona Leste de São Paulo, elaborou um novo jeito de dançar a coreografia imortalizada pela bailarina Anna Pavlova. No lugar de um colã e das sapatilhas; calça jeans, camiseta e tênis. Em vez de balé, street dance.

O autor da façanha tem nome de gênio da música, mas quer trilhar a carreira na dança: John Lennon da Silva. Sua apresentação inovadora de A morte do cisne, que foi ao ar no programa Se ela dança, eu danço, do SBT, no fim de fevereiro, virou hit no YouTube. Em entrevista por telefone ao Correio — “Como é que funciona esse negócio de matéria? Mas você está falando de Brasília mesmo?”, questionou o desconfiado rapaz, — John conta que a coreografia, que foi capaz de emocionar os três jurados que participam da atração, foi concebida em outubro do ano passado no projeto de dança que participa. Orientado pelo coreógrafo e bailarino Luís Ferron, surgia a versão do solo de balé em street dance. “Não conhecia aquela coreografia. O Ferron me mostrou e disse: ‘Pilha na música, não pilha na mulher’. Concentrei nos movimentos dos braços, dos ombros e do pescoço que têm muito a ver com popping, o estilo que eu danço. Na verdade, a coreografia completa tem meia hora, ali foi só uma amostra, mas o resultado surpreendeu Ferron e muita gente, graças a Deus”, comemora o jovem.

Convites

Depois de ir ao ar na televisão, vários vídeos com a apresentação pipocaram na web e, segundo John Lennon, eles somam cerca de 1 milhão de acessos. Muita gente nas ruas já reconhece o dançarino e seu grupo. O Amazing Break, formado também pelo irmão Jonh Maicon e mais três amigos, tem recebido diversos convites para se apresentar em São Paulo e em outras cidades do país.

Especialistas de dança clássica e contemporânea analisaram o solo de John. A bailarina Lívia Frazão gostou tanto da novidade que até postou o vídeo no seu Facebook. “É emocionante porque mostra a visão dele sobre A morte do cisne. Com a mesma música, a mesma temática, ele criou algo inovador. Prova mais do que nunca que a dança tem esse papel de inclusão social”, opinou. O dançarino e instrutor de street dance Alan Jhones, mais conhecido por B.Boy Papel, também aprovou a criatividade de John Lennon da Silva, mas que tecnicamente ele não foi muito feliz. “O estilo usado foi o popping, mas as técnicas utilizadas não foram corretas. No entanto, ele soube aproveitar os efeitos que esse tipo de dança pode oferecer e deu uma identidade nova a uma coreografia do balé clássico”, declarou.

Trajetória

Nascido em Goiânia, saiu ainda bebê para São Paulo, onde vive até hoje. John Lennon foi criado pela avó, porque sua mãe não tinha condições de bancar toda a família: ele e mais três irmãos, já que era divorciada do marido. Autodidata, desde menino John sonhava em ser bailarino e viajar pelo mundo. Integra o projeto de dança do CEU São Rafael, em São Paulo, mas ganha a vida mesmo é com o trabalho de ourives em uma joalheria.

Fã do poeta português Fernando Pessoa, os seus maiores hobbies são ler e escrever, e está se empenhando bastante para a semifinal do Se ela dança, eu danço, que será disputada em abril. “Queria muito vencer a competição e embolsar os R$ 200 mil para ajudar minha família. Tenho que apresentar três novas coreografias e espero surpreender, assim como foi com A morte do cisne. Mas adianto que tenho uma carta na manga”, revela o rapaz.

Apesar de muita gente associar a sua coreografia ao filme sensação do Oscar Cisne negro, John Lennon garante que é pura coincidência, até porque o solo foi criado bem antes da produção estrear no cinema, e ele mesmo não viu o longa protagonizado por Natalie Portman. “Assistir está na minha lista de prioridades, até porque gosto muito de dança. Mas estou sem tempo no momento, me concentrando para o programa. Quando tudo passar, e se eu conseguir vencer, quero arrumar um tempinho também para visitar meus avós em Goiânia e aproveitar para conhecer a nossa capital, Brasília, que é perto né? Fico muito feliz em ver o street dance fazendo tanto sucesso porque ele faz parte da minha vida e de milhares de jovens do país. O gueto é a minha origem e tenho muito orgulho disso”, enfatiza.

Por Ana Clara Brant, do Correio Braziliense

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1 COMENTÁRIO

  1. É nas pereferias e nas comunidades que estão as mais belas joias. Basta que os Governos, nas três esferas, apoiem, financeiramente, mais eventos do genero Hip-Hop. Desta maneira irá conseguir garimpar mais e mais joias como John Lennon da Silva. Inclusão se faz dando oportunidades.

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