Frank Ejara

Com todo o conhecimento e experiência nas danças urbanas, Frank Ejara é referência no cenário da dança. E, devido a isso, não deixamos passar a oportunidade, no caso, o encontro no 5º Festival de Dança de Garopaba/SC, e convidamos Frank para conversar sobre questões pertinentes a pesquisa. Ele, topou numa boa! Segue aí.. fragmentos importantes dessa conversa:

Consequência do Som – A música influênciou de alguma maneira o surgimento e disseminação das danças urbanas?

Frank Ejara – Eu acho que se existe uma regra maior é essa. A música dita o que você vai fazer, a música é a maior fonte de inspiração do hip hop, porque o hip hop e os funk styles surgiram por causa da música e eles modificaram por causa da música. Se você for ver o que era o Locking de 69 até 75, quando a música funk mudou pra mais eletrônica, foi quando surgiu o Popping. Foi a mudança de música que determinou. Quando o Breaking em Nova York surgiu, foi por causa do break beat. Quando a música Hip Hop surgiu através da cultura, e aí surgiu o MC, foi quando surgiu o Hip Hop Dance, o Hip Hop Freestyle. Quer dizer, todas as mutações da música acabaram gerando outra dança. O Krumping foi da mesma forma, existe uma vertente de rap music que é mais agressiva, que o Krumping adotou pra usar. Então, todas as vezes, a música dita a regra. O House foi a mesma coisa, quando  a Disco Music chegou nos anos 80 e o house apareceu transformando a Disco, ficou mais agressivo, a batida mais forte, foi quando a dança House surgiu. Então toda vez que tem uma mudança na música americana, tem uma mudança  na dança ou o surgimento de uma nova dança.

Consequência do Som – A música interfere diferetamente na dança/corpo!

Frank Ejara– E é natural. Os acentos mudam, as formas de composição mudam. Hoje eu já acho que Hip Hop Dance, que é dançado hoje, ele já é diferente do de 99. No caso do Jay D (conhecido tambem como J Dilla) por exemplo, que é um produtor de música, o tipo de batida que ele fez e que influenciou muitas produtores a fazer, influenciou na movimentação claramente. Hoje o hip hop é muito mais fluído do que forte. Quando você vê o Running Man, vê todos aqueles passos dos anos 80 e 90, você vê uma coisa mais de impacto do que de fluidez. Por causa da batida, por causa do Jay D, por causa desses caras que começaram a produzir músicas diferentes.E aí influenciou também.
Mais sobre Jay: http://en.wikipedia.org/wiki/J_Dilla

Frank Ejara em ação!

Consequência do Som – Tu acompanhas nosso trabalho na dança contemporânea?

Frank Ejara  – Eu vi ontem.

Consequência do Som  – Nós gostariamos de saber a tua opinião sobre o nosso trabalho, já que tu é um profissional que tem total conhecimento e domínio sobre as danças urbanas e que, de certa forma, nos acompanhou nesse processo de mudança/transformação dentro da dança.

Frank Ejara – Eu sempre fui um cara muito perseguido porque as pessoas acham que eu sou muito conservador. Eu não sou conservador. Um cara que trabalhou com Henrique Rodovalho não pode ser conservador. Tudo depende da proposta. Você tem que me convencer. Se você falar que vai dançar nu, Locking no palco, caindo uma gota de água no centro, você vai ter que passar alguma coisa pra mim. A  técnica tem que estar tão clara dentro do seu corpo, que o que você quiser passar pra mim, você vai ter que passar. O que eu discordo é quando as pessoas não dominaram uma linguagem e elas vão pra dança contemporânea, eu digo o pensamento contemporâneo, a estrutura contemporânea. Aí é quando eu não concordo, porque aí você não vai acrescentar em nada nas nossas danças. Agora quando você domina a sua arte e vive dentro da sua cultura, e faz algo com o que você aprendeu numa concepção contemporânea, e ela for verdadeira, então tá bom, vai ser ótimo pra dança. Agora quando as pessoas ainda não tem um caminho dentro da cultura, dentro da dança e pende para uma questão mais mercadológica, é aí você vê que acaba distorcendo. Por que na real, a minha Cia não é hip hop original, nenhum hip hop original vai para o palco, porque o nosso lugar não é ali. O nosso lugar original é nos clubs, é nas batalhas, na vivência do hip hop no dia a dia. A partir do momento que eu faço uma criação, um espetáculo, eu já não tenho mais como ser original. Eu posso usar vários tipos de música, eu posso decidir fazer uma parceria com um coreógrafo que nunca foi da minha área, eu posso pirar, porque é artístico. Quando não é competição, que não tem lá um rótulo que eu tenha que me enquadrar, há uma total liberdade. Só que, você tem que passar uma verdade no que você está fazendo, que você domina tanto a sua arte, que pode projetá-la do jeito que você quiser. E eu não concordo com quem ainda não domina a sua arte e tenta fazer arte abstrata, só isso!
Consequência do som – E em relação ao nosso trabalho?

Frank Ejara– Eu acho que vocês tem total domínio. E na linguagem corporal de vocês eu vejo que tem o street dance, tem as danças urbanas. Só que a criação vai além disso, a musicalidade vai além disso. Só que o que eu acho legal é que vocês estão dançando. Eu vejo a dança. Acho a relação com a música  muito bonita também, acho muito legal. Então assim, eu respeito muito. Mas tem algumas pessoas no nosso meio que estão tentando fazer a mesma coisa, mas elas não dominam nem a nossa área, nem a área do contemporâneo. E aí é uma grande mentira. Eu também estou nessa pesquisa, também vivo buscando novas formas de apresentar uma nova ideia pra minha Cia usando Locking, Popping e Breaking. É a minha busca também, porque eu acho que somos novos ali, a gente tem muito o que pesquisar e o que mostrar. O que eu acho legal é que eu não vejo vocês misturando, “a gente mistura com dança contemporânea”, não! Eu sinto que ainda é total o vocabulário e a forma do street dance, mas o conceito e a forma de apresentar é contemporâneo, e aí é válido, porque é mais uma forma. Agora não adianta falar que misturou com dança contemporânea, que tem um pouco disso, um pouco daquilo, que aí acaba não sendo nada. Porque vocês tem mais experiência nas danças urbanas, então tem que usar isso. Eu acho que a gente tem que fazer as coisas com as nossas ferramentas e evoluir com elas, pra linguagem evoluir também.

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