Compreender o espaço-tempo cotidianamente experimentado pelos jovens que promoveram o Hip Hop nos permite apreender suas práticas político-culturais, educativas e as múltiplas variantes que proporcionaram o surgimento do movimento Hip Hop. Diante disso, destacamos que o processo de urbanização acelerada e desordenada da ilha de São Luís, a partir das décadas de 1980 e 1990, trouxe conseqüências vitais tanto do ponto de vista do desenvolvimento econômico-social quanto da ampliação das mazelas sociais.
No início da década de 80 do século XX, São Luís era ponto de chegada de centenas de milhares de imigrantes, a maioria agricultores, vindos de todas as partes do Maranhão e, inclusive, de estados próximos. O êxodo rural em direção a São Luís experimentado há décadas, mas intensificado em meados de 1970, teve múltiplas causas: concentração de terras, precárias condições de trabalho no campo, falta de assistência médica e social em cidades do interior maranhense, conflitos fundiários etc.
Paralelamente a esses problemas, ocorreu a implantação de projetos econômicos que trariam um suposto desenvolvimento ao Estado, como o consórcio Alumar e o sistema Grande Carajás, com destaque para a Companhia Vale do Rio Doce, localizados no distrito industrial de São Luís.
Esses e outros projetos não apenas se tornaram atrativos para um grande contingente de trabalhadores, como também diretamente desapossaram centenas de famílias que habitavam os terrenos onde foram implantados. As conseqüências para São Luís foram inúmeras, desde o crescimento da urbanização, passando pela supervalorização de terrenos
com o aumento da especulação imobiliária, como também o aprofundamento das desigualdades sociais emblematizadas pelo aparecimento e proliferação de palafitas, ocupações desordenadas e sem infra-estrutura (as chamadas invasões), enfim, intensificandose o processo de periferização da ilha de São Luís (PEREIRA, 2007; RIOS, 2005;
GISTELINCK, 1988).
Em decorrência da periferização e do crescimento desordenado do meio urbano, a cidade de São Luís sofreu um inchaço com o aparecimento das chamadas “invasões” e os 6 Outros Tempos Volume 5, número 6, dezembro de 2008 – Dossiê Religião e Religiosidade conjuntos habitacionais distantes do centro com pouquíssimo saneamento básico e precárias
condições de transporte, ocasionando o que Rios (2005) denominou de “cidade inchada”.
Durante a década de 1990, o panorama socioeconômico do Estado do Maranhão era caracterizado pelos piores índices de desenvolvimento social e humano. Sob o governo de Roseana Sarney, as medidas ditas de modernização do Estado com investimento industrial, privatizações, reforma administrativa, apoio aos grandes projetos agropecuários trouxeram, ao contrário do propagandeado, aumento e intensificação dos problemas sociais. Como afirma Costa (2002, p. 16, grifo do autor), “[…] ao contrário do que os meios de comunicação oficiais afirmam, o desenvolvimento econômico nesse período foi acompanhado pelo crescimento da desigualdade e da injustiça social […]”.
A capital maranhense sofreria intenso processo de periferização e também o aumento da violência e dos problemas socioeconômicos. A juventude pobre e negra das periferias estava, então, em meio a esse contexto extremamente desfavorável.
Com relação ao segmento negro, mais um agravante se somava – a questão da discriminação racial. Como têm constatado inúmeros estudos, mesmo entre os pobres, os negros e negras têm desvantagens em virtude de sua condição racial.
O Brasil tem como uma de suas características societais a presença marcante de diferentes grupos étnico-raciais. Configura-se, portanto, como um país pluriétnico e multicultural. Essa diversidade, no entanto, está hierarquicamente dividida. Somando-se à grande desigualdade social entre pobres e ricos, encontramos um determinante fundamental na sociedade brasileira: o fator étnico-racial.
Se existe um profundo abismo entre pobres e ricos brasileiros com ampla concentração de riqueza sob controle destes, evidenciamos, a partir de um recorte étnico-racial, uma nítida desvantagem socioeconômica dos grupos não-brancos, especialmente negros e índios. No caso da população negra, os estudos têm demonstrado desigualdades no campo do trabalho, da educação, do acesso aos bens de consumo, ao lazer, ao saneamento básico etc., quando comparados aos brancos, mesmo se os situarmos entre os pobres.
Em levantamento realizado por Henriques (2001), para a década de 1990, percebemos que a pobreza tem cor e é negra. Apesar dos(as) negros(as) representarem apenas 45% da população brasileira, 64% dos pobres e 69% dos indigentes encontravam-se nesse segmento. No que concerne à renda per capita dos 10% mais pobres, 70% são negros(as), enquanto, 7 Outros

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