Profissionalização da cultura de rua

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Caxangá, Zona Norte do Recife, 17 anos atrás. Leonardo da Silva Santos pichava um muro quando foi surpreendido por um vigilante, que não hesitou em atirar. A bala atingiu a parede, depois de passar a poucos centímetros da sua cabeça. Foi ali que Leonardo percebeu que estava prestes a perder a vida nas ruas. Foi ali que ele decidiu ganhá-la. Hoje, aos 32, ´Leo Gospel`, fundador da equipe 33 Crew, destaca-se como um dos principais nomes do grafite pernambucano. Mais do que isso: destaca-se por se manter com atividades ligadas à cultura do hip hop. Por enquanto, uma raridade no estado. Por enquanto. Na cabeça dos que sonham em sobreviver como grafiteiros, DJs, MCs e B-boys (ou B-girls), a esperança de um cenário melhor é cada vez mais forte.

O otimismo explica-se sem muita dificuldade. A razão é o próprio histórico da cultura hip hop, que nasceu nos subúrbios negros das metrópoles norte-americanas, na década de 1960, mas só começou a ser valorizada há alguns anos. No Brasil, o processo foi semelhante. Nos maiores centros urbanos – São Paulo e Rio de Janeiro -, o estilo custou a pegar, mas hoje goza de um grande público consumidor. A expectativa dos pernambucanos é a de que o ´raio` caia, também, por aqui.

Enquanto isso não acontece, os primeiros casos de sucesso servem como exemplo. Casos como o do próprio Leo Gospel, que, em alguns meses, ganha mais de R$ 1 mil, graças ao trabalho como grafiteiro e tatuador e às vendas de artigos de hip hop na loja que mantém em Santo Amaro. O problema é que mesmo as ´histórias felizes` não são tão felizes assim. ´Hoje, a grafitagem é valorizada como arte contemporânea. Ainda assim, nossa vida é de altos e baixos. Quando recebo um bom dinheiro, preciso poupar, já que, em outros meses, pode não surgir nada`, conta.

O mesmo ocorre – e até com mais intensidade – em relação aos demais elementos do hip hop. Anderson Oliveira, 33, conhecido como ´Big`, é DJ, dono de estúdio, produtor artístico, diretor de espetáculos e professor. Versatilidade que, no fundo, é motivada, em grande parte, pela necessidade financeira. ´É preciso muito jogo de cintura, porque não há incentivo nem reconhecimento, sobretudo para os artistas da terra. Quem vive disso aqui é porque tem o apoio de alguém.`

Para ´Big`, as principais fontes de renda são os cursos que ele organiza e ministra no seu estúdio ou em comunidades (através de movimentos sociais, como o Pé no Chão). Isso porque as aulas proporcionam alguma garantia de dinheiro a médio ou longo prazo, ao contrário das eventuais festas para as quais é contratado como DJ.

Dificuldades à parte, Big tem o alento de trabalhar apenas com o que mais gosta. Não se pode dizer o mesmo de Marcos Pacheco, coordenador do grupo de break dance RCB (Recife City Breakers). Embora a equipe já tenha certo reconhecimento no meio, ele não consegue se manter às custas do hip hop. ´Estou me capacitando para tentar uma vaga no Estaleiro Atlântico Sul, e sempre aconselho meus alunos a também buscarem um empregodigno. Ainda não dá para viver da dança em Pernambuco.

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