Contrariando o senso comum e superando as circunstâncias, um menino de 16 anos apaixonado pelo balé ganha a chance completar sua formação em conservatório no RioEle tinha tudo para não dar certo: vive na miséria, repetiu duas vezes o ano na escola por não ter dinheiro para o ônibus e, muitas vezes, passa um dia inteiro sem comer. Mora num casebre de madeira sem banheiro em uma das zonas mais violentas de Porto Alegre.

Mas nada disso impediu Gabriel Fernandes, 16 anos, de conquistar uma bolsa de estudos numa das mais conceituadas escolas de dança do Brasil, o Conservatório Brasileiro de Dança, no Rio. Parece roteiro para um longa-metragem, mas é uma história real: Gabriel quer ser bailarino.

Cena 1

O casebre de duas peças, feito em madeira, fica num beco da Vila Atenis, bairro Mario Quintana. Uma lixeira identifica o número do endereço do garoto.

Na moradia, comprada por R$ 400, as frestas nas paredes foram cobertas com plásticos e restos de carpetes. Todos os móveis do ambiente são uma geladeira, um fogão, uma TV da década de 1980, um armário e uma cama de casal. O banheiro fica do lado de fora da casa.

Cena 2

Foi aos oito anos, vendo uma apresentação de dança de rua e de balé na Escola Municipal Ana Íris do Amaral, no bairro Protásio Alves, que Gabriel descobriu que queria dançar. Ali mesmo já enfrentou a primeira dificuldade.

– Sempre imaginei que dança era coisa para mulher – diz a mãe, Angélica Maria Silva da Silva, 37 anos.

Teimoso, Gabriel passou a mentir diariamente que teria aulas também pela manhã. Angélica não imaginava que o menino havia entrado nas aulas de dança da escola.

Cena 3

Depois de seis meses, na primeira apresentação para os familiares, Angélica descobriu a farsa. Como punição, não deixou o filho participar do espetáculo.

Ele passou o Natal e o Réveillon frustrado, mas pensando como faria no ano seguinte para retomar as aulas.

– Respeito a mãe, mas não concordo que balé é para mulher. Então, não desisti do meu sonho – revela Gabriel.

Cena 4

Como Angélica e os três filhos se mudavam constantemente, Gabriel acabou repetindo dois anos na escola por faltar as aulas. Não tinha dinheiro para o transporte.

Sempre que conseguia grana para o ônibus, aproveitava e ia às aulas de dança. Hoje, ele caminha diariamente seis quilômetros, entre a ida e a volta, para estudar.

– Não precisava do dinheiro da mãe. Só da força dela. Tenho certeza que, se fizer tudo com amor, o dinheiro virá.

Cena 5

Em 2005, a professora Ângela Tonon, que acompanha Gabriel desde os primeiros passos na escola, decidiu ajudá-lo: apresentou-o à professora de balé do Studio Cris Fragoso, no bairro Rio Branco. Ele foi aceito no primeiro teste.

– Gabriel tem a arte no corpo – diz Cristina.

Desde 2006, ele frequenta o estúdio duas horas por dia, cinco vezes por semana. Sob a orientação de Cristina, tem aulas com seis meninas. O guri, que se autodefine como perfeccionista, conquistou o primeiro lugar na categoria juvenil do Porto Alegre Em Dança. Ele e as colegas.

Cena 6

Este ano, Cristina propôs a Gabriel participar do Festival de Dança de Joinville (SC). Com ajuda financeira do Rotary Club e de algumas doações, rumou para lá em julho.

Fez teste para a filial catarinense da escola do Bolshoi, mas recusou convite para estudar dança contemporânea:

– Tenho a certeza que ainda serei bailarino clássico.

Cena 7

Apesar de ter recusado o convite para estudar no Bolshoi, Gabriel continuou participando de outras atividades. E foi no Conservatório Brasileiro de Dança, do Rio, que o jovem teve a segunda oportunidade.

Convidado a cursar 10 dias de aulas na capital carioca, ele não se conteve em pedir uma bolsa de estudos ao professor de balé clássico do Conservatório, Jorge Teixeira.

– Na hora, o Jorge me convidou para ser aluno do Conservatório a partir de 2010. Vibrei muito – lembra.

Cena 8

Ainda celebrando o convite para estudar no Rio de Janeiro, Gabriel sabe que precisará superar outras barreiras até 2010. Ele precisa de dinheiro para as passagens e, principalmente, de recursos financeiros para manter alimentação e vestuário durante o ano no Conservatório.

– Vontade não me falta, mas continuo precisando de ajuda. Afinal, a minha história não terminou – afirma.

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